quarta-feira, 26 de março de 2008

Cincotiros


Era uma manhã de domingo. O clima quente como sempre. Enquanto as mulheres preparavam os almoços, os homens batiam papo na calçada e as crianças brincavam por aí.
De repente, a piada de uns rapazes e a fofoca das comadres foram cortadas pelo barulho de cinco tiros. Mas ninguém se assustou. Havia muitos assaltos naquele bairro miserável e geralmente os tiros eram para cima, só para assustar a pobre criatura que se recusasse a entregar seus pertences.
Um cachorro latiu ao longe. Comum. Havia muitos vira-latas por aquelas bandas, e mais uma vez ninguém pareceu se importar. Mas ele continuou latindo, um latido desesperado e incessante, que começou a inquietar aquelas pessoas que só queriam um pouco de descanso e paz depois da árdua e longa semana.
Um dos homens foi ver o que tinha acontecido. Minutos depois, quando voltou, trazia consigo uma triste notícia e um corpo nos braços. Mandaram chamar a mulher da casa verde. Esta, chorando copiosamente, ouvia a história. Seu filho, um pobre mulatinho, brincava de pega-pega com as outras crianças quando foi morto por um policial, que pensava se tratar de um assalto.
Os homens recolheram as cadeiras, num gesto de solidariedade. As mulheres pararam de cozinhar. Ninguém ligava mais para o almoço. A fome, agora, era de justiça.

-Luana Lacerda

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